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[Convite à Reflexão] - Capelania UCPel
27.05.2015 | 18:23 | #capelania-e-identidade-crista
[Convite à Reflexão] - Capelania UCPel

A Capelania nesta semana busca contemplar o eixo “Igreja e reflexões pastorais”, do projeto Convite à Reflexão. Disponibilizamos  três textos que abordam a beatificação de Dom Oscar Romero, bispo mártir da América Latina  

Primeiramente oferecemos o artigo As ''últimas'' homilias de Dom Romero. Artigo de Jon Sobrino, teólogo espanhol jesuíta que oferece uma reflexão sobre as últimas homilias do arcebispo salvadorenho, assassinado em 24 de março de 1980, enquanto presidia uma missa em El Salvador. O texto foi publicado na revista de atualidade pastoral Settimana, em 23-03-2014. 

Em seguida, apresentamos a reportagem de Pat Marrin, publicada por National Catholic Reporter, 19-05-2015, “A beatificação de Romero sinaliza para onde Francisco está conduzindo a Igreja?” Como um convite a refletir sobre o significado deste acontecimento e suas contribuições pra a Igreja.

Finalmente, oferecemos  um breve excerto da  tese de doutorado do Pe. Rogério Mosimann da Silva (capelão da UCPel 2011-214) “Sempre o bem dos pobres: o pastor Oscar Romero e o povo salvadoreño (um tríptico eclesial e a sua atualidade para o século XXI” que nos convida a pensar sobre a “Atualidade da experiência e das palavras de Romero”. (A íntegra da tese pode ser acessada aqui).

Que este convite à reflexão nos permita pensar uma Igreja viva, em diálogo e atuante, conforme também nos motiva o tema da Campanha da Fraternidade, Igreja e Sociedade com o lema: “Eu vim pra servir”.

As ''últimas'' homilias de Dom Romero. Artigo de Jon Sobrino
No marco do 34º aniversário de morte de Dom Óscar Arnulfo Romero, o teólogo espanhol jesuíta Jon Sobrino oferece uma reflexão sobre as últimas homilias do arcebispo salvadorenho, assassinado por um esquadrão da morte enquanto celebrava a missa.

Sobrino é professor da Universidade Centro-Americana (UCA), em El Salvador, e doutor em Teologia pela Hochschule Sankt Georgen, em Frankfurt, na Alemanha. É autor de vários livros, dentre os quais destacamos Fora dos pobres não há salvação (Paulinas, 2008) e Jesus, o Libertador: a história de Jesus de Nazaré (Vozes, 1994).

O artigo foi publicado na revista de atualidade pastoral Settimana, 23-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.
O fim é o que dá sentido ao desenvolvimento, dizia um grande filósofo. No caso de Romero é realmente assim: as suas duas últimas homilias não foram as "últimas" simplesmente porque ele não fez outras.

Foram "últimas" porque nelas, e naqueles dias, emergiu claramente a verdadeira essência dos últimos três anos do monsenhor. Finalmente, foram "últimas" porque eles as proferiu na catedral junto com o seu povo e no pequeno hospital junto com os doentes incuráveis. E, para um pastor, nada conta mais do que o "povo" e os "pobres".

Vou me deter nas duas últimas homilias dos dias 23 e 24 de março de 1980, com algumas pequenas referências a outras que remontam aos primeiros meses de 1980. Vou citar alguns parágrafos de forma extensiva, porque muitos desses trechos são mais eloquentes do que muitas palavras.

A última homillia no "hospitalito"

No dia 24 de março de 1980, Dom Romero proferiu a sua última homilia na capela do Hospital da Divina Providência para doentes de câncer. No "hospitalito", ele preparava aos sábados as suas homilias dominicais com livros de teologia bíblica, com relatórios sobre as violações dos direitos humanos e com tudo o que tivesse a ver com a pobreza do povo. E, no "hospitalito", como Jesus junto ao lago ou no horto, rezava ao Deus que vê em segredo.

O Bispo, rodeado de multidões, a quem produzia uma profunda alegria estar com o seu povo na catedral e nas ruas, no "hospitalito" estava sozinho e sem seguranças. Às noites, ficava e vivia com o seu Deus.

As pessoas mais próximas – a poucos metros do seu quarto – eram mulheres doentes de câncer incurável, pobres todas elas, com a angústia adicional de não saber o que seria dos seus filhos, assim que morressem. Essas mulheres eram o símbolo de muitas outras mães de filhos mortos, desaparecidos, torturados e de todo um povo sofredor.

No dia 24 de março, às 17 horas, ele celebrou uma missa de aniversário pela Dona Sarita, apesar de terem lhe aconselhado que não o fizesse, pois a missa tinha sido anunciada na imprensa e podia ser um aviso para aqueles que queriam assassiná-lo. O Bispo insistiu em celebrá-la e terminou a sua homilia com estas palavras:

"Que este corpo imolado e esta carne sacrificada pelos homens nos alimente também para dar o nosso corpo e o nosso sangue ao sofrimento e à dor, como Cristo, não para si, mas para dar conceitos de justiça e de paz ao nosso povo. Unamo-nos, pois, intimamente, na fé e na esperança a este momento de oração pela Dona Sarita e por nós."

Nesse momento, ecoou o tiro. Um atirador de elite pôs um amém pascal em sua palavra. Sua identificação com Cristo, sua entrega ao seu Deus e sua entrega ao seu povo tinham se consumado.

As últimas homilias na catedral

No "hospitalito" estava a raiz do Bispo. Nas homilias da catedral viam-se os seus frutos. Nelas, aumentava a crueza da denúncia, a exigência de conversão e a necessidade de se agarrar à esperança. Fez uso do magistério da Igreja e fez um uso ainda maior do evangelho de Jesus. E, cada vez mais, trouxe para as homilias os clamores do povo que subiam até o céu cada vez mais tumultuosos. Não é de se surpreender que as homilias duravam cerca de uma hora e meia, ou mais. Lembremos o fundamental.

Como ele preparava as homilias
Em sua última homilia na catedral, o Monsenhor confessou como as preparava, qual era a fonte do que ia denunciar e anunciar. "Peço ao Senhor, durante toda a semana, enquanto vou recolhendo o clamor do povo e a dor de tantos crimes, a ignomínia de tanta violência, que me dê a palavra oportuna para consolar, para denunciar, para chamar ao arrependimento, e, embora eu continue sendo uma voz que clama no deserto, sei que a Igreja está fazendo o esforço para cumprir a sua missão."

A acusação de "meter-se na política"
Com a maioria dos seus irmãos bispos, o Bispo mantinha uma forte tensão por várias razões. Uma razão importante era que eles insistiam que a Igreja não devia se meter na política. O Monsenhor sabia muito bem que o problema era outro: o problema era sair da política de direita. Levando isso em conta, Dom Romero, pública e conscientemente, nas suas homilias, "meteu-se na política". E o fez isso com total clareza quando analisou os três projetos que surgiram depois do golpe de Estado do dia 15 de outubro de 1979. Condenou o projeto da oligarquia, em que não via bondade alguma.

Ao projeto da democracia cristã, exigiu o controle da repressão ou que abandonassem o governo. E viu mais esperanças no projeto popular, sobretudo se as forças populares se unissem e não absolutizassem a sua ideologia. E as condenou sempre que cometiam atos violentos injusto.

Na homilia de 23 de março, a defesa do Bispo

"Eu já sei que há muitos que se escandalizam com esta palavra e querem acusá-la de ter deixado a pregação do evangelho para se meter na política. Mas eu não aceito essa acusação e faço um esforço para que tudo o que o Concílio Vaticano II, a reunião de Medellín e de Puebla quiseram nos impulsionar, não só o tenhamos nas páginas e o estudemos teoricamente, mas também que o vivamos e o traduzamos nesta conflitiva realidade de pregar o evangelho para o nosso povo como se deve."

A verdade sem compromissos: a denúncia
O Bispo sempre disse a verdade. Nunca encobriu nada. Nem caiu na tentação de dissimulá-la, apelando ao politicamente correto. Dada a situação, a verdade ressoou com mais força na denúncia. E em palavras, cheias de honradez e muito próprias ao Monsenhor, disse era preciso começar dentro de casa.

"Todo aquele que denuncia deve estar disposto a ser denunciado, e se a Igreja denuncia as injustiças ela está disposta também a escutar que é denunciada e é obrigada a se converter... Os pobres são o grito constante que denuncia não só a injustiça social, mas também a pouca generosidade da nossa própria Igreja" (Homilia de 17 de fevereiro de 1980).

Apoiado na credibilidade que essas palavras dão e também em uma verdade sem compromissos, recordemos algumas denúncias. Ele as fazia com imenso carinho para com as vítimas e sem ódio – e com um difícil amor – pelos seus verdugos.

O Bispo tornou a oligarquia a responsável última pela opressão e repressão no país e pela guerra que se assomava.

"Faço um chamado à oligarquia: não idolatrem as suas riquezas, não as salvem deixando morrer de fome os demais" (Homilia de 6 de janeiro de 1980 ).

Às Forças Armadas, corpos de segurança, esquadrões da morte e a Junta de Governo, denunciou como responsáveis pela repressão:

"A Junta de Governo deve ordenar, de forma eficaz, o cessar imediato de tanta repressão indiscriminada, porque a Junta também é responsável pelo sangue, pela dor de tantas pessoas. As Forças Armadas, sobretudo os corpos de segurança, devem depor essa fúria e ódio quando perseguem o povo, devem demonstrar, com fatos, que estão a favor das maiorias e que o processo que se iniciou é de caráter popular. Vocês, ou muitos de vocês, são de extração popular, razão pela qual a instituição do Exército deveria estar a serviço do povo. Não destruam o povo. Não sejam vocês os promotores de maiores e mais dolorosas explosões de violência com que um povo reprimido poderia reagir, e com justiça" (Homilia de 20 de janeiro de 1980).

"Como pastor, sinto que tenho um dever para com as organizações políticas populares", dizia o Bispo. Mas lhes advertia repetidamente sobre seus perigos e, quando foi necessário, as denunciou.

"A essas organizações populares e, sobretudo, as de caráter militar e guerrilheiro, do sinal que forem, digo-lhes também que cessem já esses atos de violência e terrorismo" (Homilia de 20 de janeiro de 1980). "Queridos irmãos, as reivindicações do povo são muito justas e é preciso continuar defendendo a justiça social e o amor aos pobres. Mas, para isso, se de verdade amamos o povo e tentamos defendê-lo, não lhe tiremos o mais valioso: sua fé em Deus, seu amor a Jesus Cristo, seus sentimentos cristãos" (Homilia de 10 de fevereiro de 1980).

"Urge que as organizações populares vão amadurecendo para que cumpram a sua missão de chegar a ser intérpretes da vontade do povo" (Homilia de 24 de fevereiro de 1980). "Não calemos os pecados, mesmo os da esquerda, mas estes são desproporcionalmente menores diante da violência repressiva" (Homilia de 9 de março de 1980).

Uma nova Igreja de pobres e perseguidos

Foi isso que Dom Romero construiu. "Por defender o pobre, a Igreja entrou em grave conflito com os poderosos das oligarquias econômicas" (Discurso de Louvain, 2 de fevereiro de 1980).

Antes, ele já tinha dito com eloquência impressionante: "Alegro-me, irmãos, pelo fato de a nossa Igreja ser perseguida, precisamente pela sua opção preferencial pelos pobres" (Homilia de 15 de julho de 1979). "Seria triste que, em uma pátria onde se está assassinando tão horrorosamente, não contássemos os sacerdotes também entre as vítimas. Eles são o testemunho de uma Igreja encarnada nos problemas do povo" (Homilia de 24 de junho de 1979).

A dignidade das vítimas

Praticamente no começo do seu ministério, no dia 19 de junho de 1977, Dom Romero consolou os camponeses de Aguilares com estas palavras inauditas: "Vocês são o Divino Transpassado", "o Cristo crucificado". E, pouco antes de ele mesmo cair assassinado, voltou a repeti-las, ainda com mais vigor: "Todo homem é filho de Deus, e cada homem morto é um Cristo sacrificado que a Igreja também venera" (Homilia de 2 de março de 1980). E, sobre esse povo crucificado, em um arrebatamento evangélico, o Monsenhor disse: "Com este povo, não custa ser um bom pastor" (Homilia de 18 de novembro de 1979).

Não conhecemos muitos bispos que falem assim. Certamente, não em igrejas do mundo do bem-estar, e no chamado terceiro mundo eles também diminuíram. Graças a Deus, Dom Pedro Casaldáliga continua imperturbável. E ainda chegam os ecos de Christophe Munzihirwa, arcebispo de Bukavu, na República do Zaire, assassinado em 1996, que defendeu centenas de milhares de refugiados e denunciou, pelo nome, as potências estrangeiras.

A denúncia final: "Cesse a repressão!"

Só em janeiro e fevereiro de 1980, muito antes de que a guerra estourasse, houvera mais de 600 mortos. No dia 16 de março, o Bispo disse: "Nada me importa tanto quanto a vida humana". E, uma semana depois, no dia 23 de março, em um longo parágrafo, meditado e bem pensado, pronunciou estas memoráveis palavras:

"Eu gostaria de fazer um chamado de maneira especial aos homens do Exército e, concretamente, às bases da Guarda Nacional, da polícia, dos quartéis. Irmãos, vocês são do nosso mesmo povo, matam os seus próprios irmãos camponeses e, diante de uma ordem para matar dada por um homem, deve prevalecer a lei de Deus que diz: 'Não matar'. Nenhum soldado está obrigado a obedecer uma ordem contra a lei de Deus. Uma lei imoral, ninguém tem que cumprir. Já é tempo de que vocês recuperem a sua consciência e que obedeçam antes à sua consciência do que a ordem do pecado. A Igreja, defensora dos direitos de Deus, da lei de Deus, da dignidade humana, da pessoa, não pode ficar calada diante de tanta abominação. Queremos que o governo leve a sério que de nada servem as reformas se são manchadas com tanto sangue. Em nome de Deus, pois, e em nome deste sofrido povo, cujos lamentos sobem até o céu, cada dia mais tumultuosos, eu lhes suplico, lhes rogo, lhes ordeno em nome de Deus: cesse a repressão!".

"Em nome de Deus e em nome deste sofrido povo" são palavras que nunca antes tinham sido ouvidas, nem nunca depois voltaram a ser ouvidas. O estrondoso aplauso do povo, nunca antes ouvido e nunca ouvido depois, foi o amém do povo.

A esperança final: "Se o grão de trigo não morre..."

Dom Romero enfrentou conscientemente uma morte violenta. No seu último retiro que começou no dia 25 de fevereiro, ele escreveu: "Custa-me aceitar uma morte violenta, que, nestas circunstâncias, é muito possível". E, em sua última homilia no "hospitalito", aceitou a morte. "Quem quiser afastar de si o perigo perderá a sua vida. Por outro lado, aquele que se entrega, por amor a Cristo, ao serviço dos demais, este viverá como o grãozinho de trigo que morre, mas só morre aparentemente. Se não morresse, ficaria só" (Homilia de 24 de março de 1980).

Poucos dias antes, ele disse a um jornalista estas palavras memoráveis [1]:

"Fui frequentemente ameaçado de morte. Devo dizer-lhes que, como cristão, não acredito na morte sem ressurreição. Se me matarem, ressuscitarei no povo salvadorenho. Digo isso sem nenhuma arrogância, com a maior humildade. Como pastor, sou obrigado por mandato divino a dar a vida para aqueles que amo, que são todos os salvadorenhos, até mesmo por aqueles que vão me assassinar... Você pode dizer, se chegarem a me matar, que perdoo e abençoo aqueles que o fizerem" (Entrevista ao jornal El Diario de Caracas, março de 1980).

O povo de Deus
Romero falou do povo e falou de Deus, muitas vezes no mesmo discurso. Acabamos de ver isso: "Em nome de Deus e em nome do povo, cesse a repressão". E encontramos o mesmo binômio em uma linguagem mais teológica."Gloria Dei vivens pauper", disse ele em Louvain no dia 2 de março de 1980.

"A glória de Deus é que o pobre viva." Aos pobres que perguntavam "onde está Deus?", o Monsenhor os encorajava: "Deus vai com a nossa história! Deus não nos abandonou. Deus vai tirando partido até das injustiças dos homens" (Homilia de 9 de dezembro de 1979).

Romero falou do mistério pessoal de Deus. O seu desejo mais íntimo era "que eu não seja um estorvo no diálogo entre você e Deus […]. Alegra-me muito quando há pessoas simples que encontram nas minhas palavras precisamente um veículo para se aproximar de Deus" (Homilia de 27 de janeiro de 1980). Com sincera abertura a todos e sem o menor sinal de sectarismo, afirmou: "Sem Deus, não pode haver libertação" (Homilia de 2 de março de 1980).

Romero nunca se esqueceu de Deus. Mesmo nos momentos mais difíceis e críticos para o país e para si mesmo, ele o recordou como mistério abençoado. Na homilia do dia 10 de fevereiro, nos deixou estas palavras, com as quais queremos concluir estas reflexões sobre as últimas homilias do Monsenhor: "Nenhum homem se conhece enquanto não tiver se encontrado com Deus. [...] Quem me dera, queridos irmãos, que o fruto desta pregação de hoje fosse que cada um de nós fôssemos nos encontrar com Deus e que vivêssemos a alegria da sua majestade e da nossa pequenez" [2].

Notas:
1. Alguns discutem se o texto é de Dom Romero. Eu não posso responder essa pergunta. Só posso dizer que, pela linguagem, pelos conceitos e pelo pathos, o texto reflete esplendidamente o Dom Romero dos últimos dias.

2. La messa incompiuta, Le ultime omelie di un vescovo assassinato. Bolonha: EDB, 2014, 80 páginas. Homilias no original em espanhol aqui.

A beatificação de Romero sinaliza para onde Francisco está conduzindo a Igreja?
A beatificação do arcebispo martirizado Oscar Romero em 23 de maio irá reconhecer o que já é celebrado em toda a América Latina desde o seu assassinato no altar em 24 de março de 1980, em El Salvador.

Numa época de perseguição, Romero deu a sua vida pelo seu rebanho, tal como faz um bom pastor. Ele modelou a forma como de seria um bispo em uma Igreja comprometida com a justiça aos pobres. A morte de Romero e o batismo de sangue pelo qual passou o povo de El Salvador durante 12 anos de guerra civil (1980-1992) tem, inevitavelmente, grandes implicações para a Igreja universal – e para nós da América do Norte.

A reportagem é de Pat Marrin, publicada por National Catholic Reporter, 19-05-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

A determinação do Papa Francisco em levar adiante a causa de beatificação de Romero reconhece este testemunho. Essa determinação também revela a influência que Romero está tendo sobre os objetivos do próprio Francisco como papa – mover a Igreja global para mais perto daquele tipo de Igreja que emergiu em El Salvador com Romero, cuja história é um exemplo para uma igreja comprometida com os necessitados.

Este artigo explora algumas de suas características: uma Igreja fiel às reformas do Concílio Vaticano II, plenamente engajada no mundo moderno e em suas lutas econômicas e sociais; uma Igreja pastoral que estende a mão aos sofredores e marginalizados da sociedade; uma Igreja que levanta a sua voz publicamente; uma Igreja profética, desafiadora dos sistemas mundiais que oprimem e exploram os pobres; e uma Igreja evangelizadora que pratica o que prega e vive o que reza.

Uma Igreja do Vaticano II
Dom Vincenzo Paglia, principal defensor da causa [para a beatificação] de Dom Oscar Romero, chamou-o de um “mártir da Igreja do Concílio Vaticano II”. A escolha de Romero em “viver com os pobres e defendê-los da opressão” advém dos documentos do Vaticano II e do encontro, de 1968, dos bispos latino-americanos em Medellín, na Colômbia.

Foi em Medellín que a frase “opção divina pelos pobres” primeiramente entrou para a linguagem oficial da Igreja, uma importante mudança numa época em que a hierarquia católica na América Latina era, por muitos, vista como estando alinhada com os ricos e poderosos.

No centro do debate sobre a natureza da Igreja que continuou durante o Vaticano II estava se a entrada de Deus na história humana em Jesus valia somente para vida eterna no além, ou se a salvação incluía a presença divina na luta por justiça social, pelo desenvolvimento humano e pela libertação da pobreza e opressão deste mundo.

A “Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Atual” respondeu a esta questão já em suas primeiras linhas: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (Gaudium et Spes, § 1).

Para Romero, a Encarnação significava que a vida, a morte e a ressureição de Jesus formam uma realidade presente, são o motor da história, ativo em cada geração da Igreja. Assim como o Bom Pastor dá a vida pelo seu rebanho, da mesma forma Romero escolhe morrer com o seu povo querido em vez de correr para um lugar seguro ou comprometer o Evangelho para acomodá-lo às forças que atacam a Igreja. Depois de Medellín, a teologia precisou lidar com a história.

Uma Igreja na história
Quando movimentos populares de libertação fulguravam nos países em desenvolvimento durante o período pós-colonial da década de 1960, os Estados Unidos viram uma infiltração comunista em todo o lugar e intervieram com os seus interesses de Guerra Fria em todo o mundo. Isto definiu o contexto no qual forças geopolíticas e econômicas complexas bateram-se de frente na América Latina, com consequências trágicas. El Salvador se via em meio a uma situação complicada na década de 1970. Enquanto que a influência do Vaticano II levava a uma maior defesa da Igreja para com os direitos humanos dos pobres, regimes entrincheirados se tornaram mais repressivos, apelando aos EUA por apoio e acusando opositores, incluindo sacerdotes católicos e freiras, de estarem propagando a ideologia marxista.

Romero foi nomeado bispo de San Salvador em 1977 porque era considerado um líder espiritual seguro, conservador, que não iria desafiar o status quo no pequeno país centro-americano administrado por poucas famílias ricas que eram apoiadas pelos militares.

Mas dentro de poucas semanas após a instalação de Romero, um de seus pastores rurais e amigo próximo, o padre jesuíta Rutilio Grande, foi morto por soldados do governo após apoiar trabalhadores campesinos pobres que tentavam se organizar em busca de uma reforma agrária e melhores salários. Romero saiu desta crise como um pastor devoto e defensor do povo. Seis sacerdotes e dezenas de agentes pastorais, catequistas e membros fiéis da Igreja foram mortos nos meses seguintes. Quando perguntado por um repórter o que fez enquanto arcebispo,Romero respondeu: “Eu juntei os corpos”.

Romero mergulhou no sofrimento das vítimas e de suas famílias. Tornou-se o representante dos que não tinham voz, usando suas homilias dominicais, transmitidas por rádio no país e na região, para contar suas histórias e exigir que o governo se responsabilizasse pelas centenas de pessoas detidas, torturadas e desaparecidas, quando as tensões se agravavam em direção a uma guerra civil.

Romero era acusado pelos críticos, dentro e fora da Igreja, de estar “se metendo na política” e de subverter a missão espiritual da Igreja, a qual, diziam eles, era a de salvar almas. Longe de abandonar os ensinamentos da Igreja, Romero estava aplicando os documentos do Vaticano II e de Medellín e as encíclicas do Papa Paulo XVI à realidade do povo de Deus em El Salvador.

Uma Igreja dos pobres
Uma vez que Romero decidiu desafiar a minoria rica de El Salvador, apoiada pelo exército, o seu destino foi juntar-se à maioria pobre. O seu período como arcebispo (1977-1980) se tornou um martírio de calúnias com constantes ameaças de morte, que durou três anos. Romero e a Igreja martirizada de El Salvador revelaram o custo de uma Igreja que defende os pobres.

A cumplicidade histórica da Igreja com a riqueza e o poder era um dos escândalos da Igreja pré-Vaticano II. Isso continua sendo um desafio, como evidenciado nos recentes esforços para limpar o Banco Vaticano de contas secretas e da lavagem de dinheiro. A questão é se o silêncio da Igreja pode ainda ser comprado com uma filantropia para obras de caridade advinda da riqueza criada de forma injusta, que explora os pobres e ignora o bem comum.

O Papa Francisco insistiu que a verdadeira solidariedade com os pobres, na luta deles em participar na configuração do futuro para a família humana inteira, é essencial para a missão de evangelização da Igreja.

Uma Igreja pastoral
Uma tal Igreja não acontecerá sem bons líderes. Romero deu forma à imagem do Papa Francisco de um pastor “com cheiro de ovelhas”, mergulhando na vida dos trabalhadores, dos estudantes e das famílias, em particular das crianças e dos idosos. Onde quer que fosse, as pessoas o cercavam e o abraçavam. Enquanto aumentavam os ataques pessoais vindos dos níveis mais altos de poder, inclusive ataques que emanavam do Vaticano, Romero encontrava consolo e força no povo. Ele descobriu neste povo aquilo que John Henry Newman chamava “o terceiro Magistério” – a experiência dos leigos –, que forma o sensus fidelium sobre o qual a doutrina da Igreja, em última instância, se fundamenta.

O Papa Francisco sabe, por experiência própria na Argentina, que é aqui onde os bispos encontram a Igreja dos pobres e recebem as suas credenciais como líderes servos.

Uma Igreja colegiada
“Vaticano II” era sinônimo para o diálogo em direção ao consenso. As quatro sessões deste concílio ajudaram os bispos a redescobrir o seu papel como parceiros apostólicos do papa. O processo de tomada de decisão é tão importante quanto o resultado. Uma participação plena e ativa de todos em discernir e possuir uma política pastoral é o que nos constitui como Igreja.

Romero liderava por consenso, consultando o clero, os agentes pastorais, os religiosos e os leigos, em suas homilias e nas quatro cartas pastorais que escreveu como bispo, documentos que abordaram todos os aspectos da vida da Igreja em crise. Ele foi um “mártir de reuniões”, convocando e participando de infinitas reuniões para escutar, exaustivamente, cada ponto de vista antes que as decisões fossem tomadas.

Ciente dos olhares sob o qual se encontrava, Romero gravava tudo, até mesmo as suas reflexões pessoais, em um gravador, todos os dias. Ele deixou registros escritos que o protegeram dos críticos revisionistas, que o chamavam de marxista, um pateta que cedeu às influências dos jesuítas e um herege.

Estes seus registros meticulosos mostram o quanto estava engajado com a sua igreja local.

Romero valorizava fazer sondagens, consultas em lugar de tomar decisões a portas fechadas, porque via o quanto esta forma levava a soluções pastorais melhores. O Papa Francisco reafirmou este mesmo princípio quando abriu o Sínodo dos Bispos 2014 sobre a família à ampla participação dos leigos e incentivou o debate entre os participantes. Ele também reafirmou as conferências regionais dos bispos e a subsidiariedade em todos os níveis.

Uma Igreja colegiada fica mais bagunçada e corre mais riscos do que aquela que preza a continuidade em detrimento da adaptação, que preza o cumprimento em detrimento do discernimento. O Papa Francisco quer uma Igreja viva, aberta às surpresas de Deus. É isso o que nos capacita a resolver os paradoxos aparentes ao juntarmos a misericórdia à justiça, o amor à verdade, os ideais à realidade.

Adoração autêntica
Romero compreendia o poder da adoração pública para revelar os mistérios divinos mais profundos. Especialmente nas missas de domingo, ele recordava os fiéis da identidade batismal e da comunhão deles como membros do corpo de Cristo. As suas homilias faziam com que as Escrituras e os ciclos litúrgicos ganhassem vida na experiência das pessoas, unindo suas lutas e seus sofrimentos com aqueles de Jesus. Mesmo nos momentos mais violentos, Romero garantia-lhes que jamais estariam sozinhos, pois Deus estava acompanhando o seu povo em sua peregrinação através da história.

Os dias finais de Romero refletiam a Quaresma e a aproximação da Semana Santa. A sua última homilia, proferida na semana anterior ao Domingo de Ramos – dia do seu funeral –, baseou-se no Evangelho de João (12,24-26): “Eu garanto a vocês: se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muito fruto”. Momentos depois, completamente paramentado, de pé no altar de uma pequena capela de hospital, foi atingido e morto por um atirador de elite. O significado da missa revelou-se em detalhes, e a Palavra de Deus que ele havia recém pregado “hoje se cumpriu” (Lucas 4,21).

A morte de Romero resumiu o seu sacerdócio e o uniu ao sacerdócio de milhares de mártires que já haviam morrido e que morreriam nos anos que se seguiram ao seu assassinato.

A adoração que está correta virtualmente, porém estando vazia das realidades que ela simboliza, torna irrelevante a religião. Somente quando a liturgia faz justiça e conecta a vida de Jesus às nossas vidas é que ela se torna eficiente como uma formação cristã.

O Papa Francisco busca reevangelizar a Igreja, hoje, fazendo as mesmas conexões. Ele está escrevendo o seu papado a partir das leituras do Lecionário que prega em suas missas diárias. Através da palavra e do exemplo, a vida da Igreja está sendo proclamada como a vida, a morte e a ressurreição de Jesus que se desdobra dentro do ano litúrgico e dentro da história.

Chamado à conversão
Uma lição desconfortável porém inescapável de história aguarda os católicos norte-americanos que quiserem saber sobre o mais novo santo e mártir. A beatificação de Romero atrairá a atenção mundial para El Salvador e para as perguntas: “Quem foi Oscar Romero, quem o matou, e por quê?”

A responsabilidade pelos crimes cometidos em El Salvador continua a se esquivar da plena adjudicação. Mesmo assim, é difícil negar que, entre os muitos fatores que criaram uma instabilidade política e econômica na região, estava a longa história do envolvimento norte-americano, que incluía a derrubada de governos não alinhados com os nossos interesses nacionais e o apoio a governos corruptos, repressivos, que serviam às nossas pautas na Guerra Fria.

Dentro deste quadro, os EUA financiaram a guerra em El Salvador que matou mais de 75 mil pessoas, a maioria civis. Soldados salvadorenhos treinados e assessorados pelos militares norte-americanos, usando armas, aviões e helicópteros norte-americanos, massacraram milhares de pessoas indefesas em El Mozote e no Rio Sumpul. As tropas de elite que que assassinaram seis sacerdotes jesuítas, uma trabalhadora doméstica deles e sua filha no campus de uma universidade em San Salvador, no ano de 1989, haviam recém retornado de um treinamento na Escola das Américas [um dos institutos do Departamento de Defesa dos Estados Unidos à época situado no Panamá].

O caminho para a santidade de Dom Oscar Romero é um chamado para que nós saibamos do papel que o nosso país está desempenhando no mundo. A mensagem de paz e reconciliação, de justiça e misericórdia de Romero dirige-se a nós. Além disso, Romero aponta agora para o caminho a seguirmos na direção que o Papa Francisco disse querer levar toda a Igreja.

Que papel os católicos americanos e o nosso governo eleito desempenharão aqui depende de vivenciarmos, ou não, uma profunda transformação da mente e do coração. Podemos questionar sistemas econômicos dos quais nós nos beneficiamos e que se constroem às custas dos pobres do mundo? A nossa própria sobrevivência está em jogo em um mundo cada vez mais instável. O custo da mudança é a nossa conversão para uma solidariedade maior com os nossos irmãos e irmãs de todo o mundo. Um mundo diferente é possível e necessário.

Será preciso uma Igreja global, empenhada em alterar a direção da história no sentido de um futuro mais justo, sustentável. Romero e o povo de El Salvador deram suas vidas por uma tal Igreja, e o Papa Francisco parece determinado a convidar todos nós para fazermos parte dela.

Beato Oscar Romero e Mártires de El Salvador, rezem por nós.

SEMPRE O BEM DOS POBRES: O PASTOR OSCAR ROMERO, O TEÓLOGO JON SOBRINO E O POVO SALVADOREÑO (UM TRÍPTICO ECLESIAL E SUA ATUALIDADE PARA O SÉCULO XXI)

SILVA, S. Sempre o bem dos pobres: o pastor Oscar Romero e o povo salvadoreño (um tríptico eclesial e a sua atualidade para o século XXI. 2012. 301f. Tese (Doutorado em Teologia) Escola Superior de Teologoia, Instituto Ecumênico de Pós-Graduação. São Leopoldo, 2012.

Conclusão do capítulo 2: Atualidade da experiência e das palavras de Romero

Óscar Romero viveu num determinado tempo e lugar. El Salvador, fins da década de 1970. A realidade do país, nesse contexto específico, possui contornos muito próprios. A opressão socioeconômica e a repressão política marcavam fortemente a experiência salvadoreña. A Igreja, Romero à frente, buscou fazer frente a essa realidade, e esteve à altura de seu tempo. Trinta anos depois, ainda mais em outra nação, o que permanece de Romero que continua iluminador para a sociedade, a Igreja e a teologia hoje? Um primeiro passo para se chegar a uma resposta é dizer que Romero é tão atual quanto o Evangelho de Jesus Cristo pode ser atual para nós hoje. É verdade que o contexto é outro, que o mundo passou por grandes transformações, e que isso exige novas encarnações do mesmo anúncio do Reino de Deus. Porém, não é menos verdade que, infelizmente, em muitas partes do planeta a realidade de miséria e opressão permanece. E isso permite inclusive uma analogia mais próxima entre o contexto de Romero e o de muitos povos de nossos dias. Além disso, alguns princípios romerianos atravessam os anos e se mantêm válidos. Foram esses princípios, nos quais vemos atualidade, que buscamos sistematizar e explicitar. Em primeiro lugar, Romero é um homem de fé, e que faz uma leitura da história a partir da fé cristã. As alterações na sociedade e no campo religioso não significam que devamos renunciar a seguir fazendo o mesmo, ainda que de outra maneira. Romero, à luz de sua fé, afirma a transcendência divina. Porém, compreende a transcendência em íntima conexão com a história humana, na qual o Reino deve se encarnar. Se a realidade mudou, não mudou o princípio (a realidade é outra, mas vale a exigência de encarnar o Reino nessa nova realidade). Se Deus quer salvar cada povo na sua história particular, é de se perguntar: como Deus quer salvar a nossa sociedade hoje, sendo ela o que é? Permanece de pé, também e principalmente, a perspectiva a partir da qual Romero, enraizado em sua experiência de fé, olha a realidade, a opção de fundo desde a qual emerge o critério para julgar toda realidade histórica: o bem dos pobres. Os rostos dos pobres hoje podem ser novos, mas permanece o princípio: que os pobres tenham vida. É aqui que localizamos o núcleo, o eixo a partir do qual temos acesso a uma interpretação de Romero que condiz com a sua experiência mais profunda. E a interrogação agora, pertinente também para o século XXI, é: como continuar hoje a ser Igreja, a fazer teologia, a organizar uma sociedade, segundo o bem dos pobres?

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