Um tema difícil de ser tratado e abordado agora ganha espaço nas páginas do livro Praça Coronel Pedro Osório - O outro lado do negócio, da professora da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Jara Fontoura da Silveira, que será lançado nesta sexta-feira (11), às 18h30min, na Livraria Educat (Espaço de Convivência do Campus I). Em 112 páginas, a pedagoga revela seu olhar sobre a complexidade e contextualização do viver das prostitutas que atuam no principal espaço público de Pelotas. A obra é resultado do contato de Jara com as profissionais do sexo, como as define, durante os quatro anos de desenvolvimento do projeto SER (Solidário e Esperançoso Recomeço).
“A primeira tentativa de aproximação, com as trabalhadoras do sexo, efetivou-se através da observação diária do seu viver naquele local durante um ano, e, aos poucos, alguns diálogos começaram a emergir. Era preciso desvelar aquele lugar e a origem de suas histórias de vida”, descreve a autora na Introdução do livro. Tais diálogos e as revelações que surgiram a partir deles são apresentados junto de depoimentos dos acadêmicos de diversos cursos da UCPel que integraram o projeto SER, como Serviço Social, Pedagogia e Psicologia, por exemplo. “Temos a exposição das próprias mulheres, assim como reflexões de profissionais e pesquisadores das áreas de Educação, Filosofia, Religião e Comunicação”, sintetiza.
Segundo Jara, o intuito é transmitir às pessoas o entendimento teórico do que significa tal experiência. O SER, realizado a partir de 1999, tinha por objetivo maior apresentar alternativas de resgate da cidadania e possibilitar uma melhor qualidade de vida às mulheres que fazem da Coronel Pedro Osório um local de trabalho para sustento de suas famílias.
Inicialmente a proposta de mudança causou surpresa e susto. Enquanto umas pretendiam prosseguir como se encontravam, outras estavam dispostas a encarar o afastamento do cotidiano da praça. Àquelas interessadas em deixar a vida de trabalhadoras do sexo, eram qualificadas em oficinas e cursos profissionalizantes. Às que continuariam na profissão, considerada a mais antiga do mundo, o projeto incentivava a busca por direitos, cuidados com a saúde e o estímulo à cidadania.
Um trágico fim: O projeto SER encerrou suas atividades em setembro de 2003, quando uma das profissionais do sexo foi encontrada morta. A Muda, como era conhecida por todos, não tinha nome e nem sobrenome; não possuía qualquer tipo de documento. E foi exatamente no dia em que conseguiu de fato se tornar uma cidadã reconhecida que a tragédia cruzou seu caminho. De Muda, passou a ser Luana Azevedo Gonzales Fontoura, nome que adotou em sua certidão de nascimento. “Provavelmente esse foi um dos dias mais felizes da vida dela”, disse Jara, ao recordar a tarde em que Luana recebeu a certidão. “Contente e satisfeita, ela foi na universidade atrás de mim para mostrar o documento”, completou.
Ironicamente, foi também no 12 de setembro de 2003 que a vida de Luana chegou ao fim. Até hoje é desconhecida a verdadeira causa do falecimento dessa profissional do sexo atendida pelo SER. Na certidão de óbito constou: morte natural. Jara, descontente diante do resultado das investigações e do tratamento preconceituoso com que o caso foi tratado, também considerou que o projeto havia chegado ao fim. “O projeto SER, durante esses anos de atividades, sempre esteve comprometido, buscando e tentando, numa linha infatigável, dentre erros e acertos, o desvelar do outro lado do negócio”, afirma.
Os interessados em conhecer mais dessa e de outras histórias podem comparecer ao Espaço de Convivência da UCPel (Gonçalves Chaves, 373) e participar do lançamento. Praça Coronel Pedro Osório - O outro lado do negócio, pode ser adquirido na Livraria Educat por R$ 15,20. Mais informações pelo telefone (53) 2128.8236.